Capacete Elmo: inovação cearense é símbolo da luta para salvar vidas na pandemia

Hoje, o cearense Júlio Cals de Alencar, 39, sustenta no olhar a alegria e o alívio de ter conseguido vencer a maior batalha pessoal enfrentada até o momento. Júlio, que é presidente nacional da Cruz Vermelha Brasileira, testou positivo para covid-19 durante missão humanitária no Oiapoque, no Amapá, em março de 2021. Poucos dias após receber o resultado, o quadro de Júlio se agravou, e ele precisou ser internado, em Fortaleza.

“Fiquei longe da família, fiquei longe de tudo, só com médicos e enfermeiros. Sem poder lutar, tendo que reagir, mas a cabeça da pessoa é muito difícil. No segundo dia de internação, eu já estava com máscara de Venturi, recebendo 15 litros de oxigênio por minuto. Meu organismo começou a ser bombardeado pelo vírus. Foi quando os médicos indicaram o uso do capacete Elmo. Eu ficava em média nove horas por dia dentro do capacete”, relata Júlio, que ficou com o pulmão comprometido, mas não precisou ser intubado.

Assim como ele, mais de 40 mil pessoas foram beneficiadas com o Elmo – capacete de respiração assistida utilizado para tratar pacientes com quadro leve ou moderado de covid-19. Resultado de uma articulação do Estado do Ceará com institutos de ciência e tecnologia, universidades e os setores industrial e comercial, o capacete cearense foi utilizado em hospitais públicos e privados para salvar vidas em diversos estados do Brasil. A inovação receberá a Medalha da Abolição 2020-2022, concedida pelo Governo do Ceará, em solenidade a ser realizada no próximo dia 25 de março.

Júlio, que sempre teve interesse pela simbologia e histórias contidas nos capacetes utilizados em campos de batalhas, nunca imaginou que seria necessário utilizar uma proteção similar para lutar contra um inimigo quase imperceptível, o coronavírus. “Cada guerreiro utiliza o capacete que mais lhe convém. O capacete Elmo veio realmente proteger a vida daquelas pessoas que estão sendo atacadas pela covid-19”, ressalta o ativista, que guarda em seu escritório capacetes que pertenceram a um enfermeiro e um soldado socorrista da segunda mundial, além de réplicas de Elmos utilizados por soldados no Império Romano.

Recuperado, ele se emociona ao falar que pôde comemorar a aprovação do seu primogênito na universidade e o aniversário do filho mais novo, que completou 3 anos neste mês. “A palavra que eu tenho é gratidão pela existência deles, pelo trabalho desenvolvido, e por estarem à disposição da sociedade para salvar vidas. A gratidão é algo que deve mover o mundo. A gente precisa ser grato não só da boca para fora, mas entender que aquelas pessoas se dedicaram para te devolver a vida ”, agradece.

Sopro de vida

Em abril de 2020, quando os números da pandemia da covid-19 aumentaram em todo o Brasil – a primeira onda –, no Ceará foi iniciada uma força-tarefa com o objetivo de encontrar, antecipadamente, soluções para um problema que poderia acontecer no estado, principalmente em Fortaleza: a falta de respiradores e ventiladores mecânicos. Naquele momento, gestores de organizações públicas e privadas, bem como pesquisadores e profissionais de saúde envolvidos ao longo do processo, davam os primeiros passos para a criação do que viria a se tornar um dos maiores exemplos de inovação em saúde no Ceará, o capacete Elmo.

Na primeira reunião virtual estavam presentes representantes do Governo do Ceará, por meio da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), vinculada à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Educação Superior (Secitece), e Escola de Saúde Pública do Ceará Paulo Marcelo Martins Rodrigues (ESP/CE), vinculada à Secretaria Estadual de Saúde (Sesa); da Universidade Federal do Ceará (UFC); da Universidade de Fortaleza (Unifor); e do Sistema da Federação das Indústrias do Ceará, por meio do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai).

“[O Elmo] Mostra que, se a gente agregar instituições, partindo até mesmo de uma indução do Estado, que reconhece o problema público e chama os atores envolvidos – públicos, privados e a sociedade em geral para participar – a gente colhe frutos que têm muito impacto social. Nós precisamos aprender com essa experiência. Ou seja, refletir sobre, fazer uma análise, e tentar reproduzir em outras áreas do conhecimento”, é o que destaca um dos idealizadores do Elmo, Marcelo Alcantara Holanda, médico pneumologista e superintendente da ESP/CE.

Inovação e solidariedade

O Elmo é resultado de um ecossistema inovador criado para desenvolver uma solução que pudesse ser produzida em solo cearense e atender a maioria dos pacientes, prevenindo a intubação. O nome foi escolhido justamente por significar uma proteção para aqueles que lutam pela vida.

“A ideia do capacete foi muito amadurecida, refletindo sobre o cenário que a gente tinha que enfrentar; dar suporte respiratório ao paciente, ao mesmo tempo em que a gente tinha que proteger outras pessoas ao redor do paciente de se contaminarem. Então o capacete, por ser um objeto selado no pescoço, tem zero vazamento, praticamente. E com filtros a gente evita que gotículas, que o paciente poderia expelir com o vírus, contaminem o ambiente e os profissionais de saúde”, explica o médico.

Após desenhar a solução, as equipes partiram para a fase de prototipação. O engajamento de instituições e pessoas corajosas foi decisivo para dar agilidade ao movimento de cooperação científica que garantiu um melhor tratamento aos pacientes. “Foi improvisado, no Instituto Senai, o laboratório Elmo, em um tempo recorde. Nós convidamos fisioterapeutas, engenheiros clínicos, técnicos da área industrial, profissionais do design, engenheiros de software e de produção. Esse pessoal todo se reuniu no laboratório testando nove protótipos ao longo de dois ou três meses”, detalha.

Com o protótipo validado em mãos, em junho de 2020, os estudos clínicos foram iniciados. “O uso do capacete no primeiro paciente foi no Hospital Leonardo da Vinci, que foi eleito porque era um hospital exclusivo para tratar pacientes com covid. Lá foi feito o estudo clínico nos primeiros 10 pacientes. E nós provamos, através desse estudo [chamado de viabilidade], que era viável, seguro e confortável usar o capacete Elmo. Isso permitiu entrar no processo um ator importante, a empresa Esmaltec. Com os dados da prototipagem, fase em que ela também participou, e do teste clínico, a Esmaltec pôde submeter à Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] o projeto do Elmo. E a Anvisa autorizou para uso emergencial, em novembro de 2020”, conta.

Em dezembro de 2020, quando o Brasil passou a enfrentar a segunda onda da covid-19, o Elmo começou a ser utilizado no tratamento de pacientes, registrando pico de utilização do capacete cearense entre dezembro do mesmo ano até abril de 2021.

Até o momento, a Esmaltec, empresa que fabrica os equipamentos, já distribuiu e comercializou aproximadamente 10 mil unidades no País . Cada equipamento pode ser utilizado em até quatro pacientes. Ainda sobre resultados, quase 2.400 capacetes já foram doados ao Sistema Único de Saúde (SUS) no Ceará. Mais de 2.100 profissionais foram capacitados em todo o Brasil pela ESP/CE presencial ou virtualmente, incluindo os que atuaram na crise de oxigênio em Manaus, em janeiro de 2021. Hoje, a ESP sedia o laboratório Elmo.

Para o gestor da ESP, o Elmo receber a Medalha da Abolição tem uma relevância histórica para todas as instituições que participaram do desenvolvimento do projeto que continua a ajudar milhares de pacientes. “Com o projeto do Elmo, a Escola de Saúde Pública aprendeu como se faz inovação. Esse aprendizado sólido se baseia em um produto que, inclusive, foi premiado nacionalmente como melhor case de inovação em um Congresso da Indústria Brasileira”, celebra.

Mais sobre o Elmo

Conheça o Capacete Elmo: abre.ai/cearenseando44
Elmo é utilizado para salvar vidas em Manaus: abre.ai/cearenseando68
Elmo – saúde, ciência, inovação e solidariedade: abre.ai/opasaude6

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Postado em

23 de março de 2022