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É possível ser feliz no trabalho? É possível fazer do trabalho um dispositivo de felicidade para outras pessoas? Um laboratório que se chama Felicilab carrega em seu bojo esses questionamentos, de nascença. Não temos respostas prontas, mas estamos em permanente processo de reflexão e elaboração. A emersão da felicidade como um valor governamental, uma das fontes de inspiração para a escolha do nome, veio com a própria redefinição do propósito da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará (Sesa): “Qualificar a força de trabalho em saúde do Ceará, por meio da educação, ciência e inovação, buscando bem estar e felicidade”.

“Quando percebi que a felicidade estava presente no propósito institucional, e que tudo o que iríamos fazer estava relacionado a uma mudança de cultura, de produzir inovação centrada na melhoria das experiências das pessoas com os serviços de saúde, entendi que a felicidade era um ponto de convergência essencial para a transformação em curso”, explica o coordenador do Felicilab, o hacker Uirá Porã.

Uirá Porâ, coordenador do Felicilab

Uirá Porã defende a felicidade como missão das tecnologias

Embora seja um nome que faz bastante sucesso nos locais em que é apresentado – escolas, eventos, palestras – no geral, essa relação da felicidade, um conceito polissêmico e bastante abstrato, com os fazeres cotidianos de um laboratório de inovação na área da saúde não é facilmente assimilável.

“Algumas pessoas de fora da Escola (Escola de Saúde Pública do Ceará, onde situa-se o Laboratório), e mesmo de dentro, já me perguntaram se eu estava feliz aqui, ou se eu estava fazendo alguém feliz, de uma maneira irônica, por causa do nome do laboratório, e eu fiquei meio reflexiva”, diz uma das colaboradoras do Felicilab, a psicóloga e gerente de projetos Nazka Farias.

 

Time de Projetos do Felicilab

Time de Projetos do Felicilab. Da esquerda para a direita: Diego Chagas, Nazka Fernandes e Alexandre Rodolpho

 

Do mesmo modo, para o publicitário e podcaster Edmilson Miranda Júnior, colaborador do time de Narrativas do Felicilab, o nome do laboratório imputa diversos desafios referentes à sua compreensibilidade, identificados em seu estudo de pontos fortes e pontos fracos associados ao nome e/ou marca do laboratório.

“Somos um laboratório do governo, da saúde pública, e nenhum desses pertencimentos está óbvio na ‘marca’ Felicilab. O risco disso é a perda de credibilidade ou a fragilidade da identidade. Por outro lado, há uma potência discursiva e transversal nessa escolha, além da própria leveza, que acabou se tornando nossa aposta”, diz.

Afinal de contas, o que mesmo estamos fazendo e porque achamos que esses fazeres se relacionam com felicidade?

 

Projetos de felicidade e modos de inovação

 

Sem querer querendo, como diria o famoso personagem mexicano, Porã apostava no que o médico, sanitarista, e professor titular do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), José Ricardo Ayres, definiu como “Concepção Hermenêutica de Saúde”, relacionando diretamente os conceitos de saúde e de felicidade como partes de um mesmo projeto existencial a ser co-vivido entre agentes e instituições do setor.

Para o autor, existe uma dicotomia naturalizada nas discussões sobre saúde que é bastante limitante: a oposição que se faz entre os seus sentidos e os sentidos de doença, como duas coisas necessariamente opostas e correspondentes – como se saúde pudesse ser definida como ausência de doença; e doença pudesse ser definida como ausência de saúde. E que se a gente pensar bem, e olhar para dentro de si, as respostas vão sempre além disso, mas colonizados que somos pelo paradigma biomédico de interpretação de ações de saúde, evitamos correr o risco de filosofar demais e agir de menos.

Num paradigma hermenêutico da saúde, contudo, a felicidade aparece como uma atitude concreta, e não apenas como uma abstração. Sem abrir mão do êxito técnico que a biomedicina traz historicamente para a sociedade, e nem do sucesso prático das ações e políticas de promoção e prevenção da saúde, é possível pensar em “projetos de felicidade” como nova referência normativa para a produção coletiva da saúde, “como uma espécie de sentido último de toda a práxis”.

“[A felicidade] é uma ideia reguladora, que se relaciona com uma série de estados ou condições materiais e espirituais, mas não se confunde com eles e não pode ser garantida a priori por nenhum deles. A experiência da felicidade evidencia, com seu devir, outras possibilidades de apropriar-se da existência e, portanto, novas exigências para sua permanência. Ela convive o tempo todo com infelicidades – interesses negados, frustrações, obstáculos, limites, dores, angústias. É para a superação desses obstáculos que a felicidade vai apontando caminhos para a ação”, explica o autor.

Nessa direção, faz todo sentido correr o risco de uma definição menos conservadora e linear de um laboratório, o que por um lado bagunça a formulação de traduções mais diretas – Felicilab não deveria ser traduzido como Laboratório da Felicidade? – e por outro provoca justamente a inovação, por suas múltiplas possibilidades interpretativas. A tal da potência discursiva da qual falamos acima.

 

Time de narrativas em final de planejamento

Time de Narrativas em final de planejamento: Clarisse Castro, Érica BPinho e Edmilson Miranda

Soluções inovadoras para experiências felizes

 

Em pesquisa realizada em 2013, a economista Maria Alice Ferreira dos Santos examinou as relações de bem-estar e tecnologia que poderiam ser consideradas como possíveis determinantes empíricos da felicidade individual no Brasil. E chegou a uma conclusão curiosa: a inovação tecnológica afetou de forma positiva a felicidade dos brasileiros, enquanto que a mesma afetou de forma negativa a felicidade dos norte-americanos. A comparação foi necessária, segundo a autora, para problematizar a tendência apontada em diversas pesquisas de que quanto maior o acesso às inovações tecnológicas, maior a felicidade, o que explodiria os índices desse sentimento nos países mais ricos do mundo, aqueles que têm acesso mais rápido ao que há de mais moderno e avançado em tecnologias.

“Esses resultados confirmaram que os países em desenvolvimento, como o Brasil, apresentaram ganhos no nível de felicidade de sua população, uma vez que grande maioria ainda não tem acesso à tecnologia e, portanto, a inovação tecnológica é uma novidade para a maior parte dos cidadãos brasileiros. Já os países desenvolvidos, aqui representado pelos Estados Unidos, alcançaram um elevado nível tecnológico em que todas as pessoas têm acesso à tecnologia e, portanto, estão sofrendo os efeitos negativos que a mesma pode provocar”, concluiu a autora.

 

Time de programação

Time de programação e a experiência de trabalhar com SCRUM. Na imagem, da esquerda para a direita (de pé): Bruno Loureiro, Júnior Oliveira, Jefferson Soares, Jackanderson, Anderson Dantas e Victor Magalhães (sentado)

 

Entendemos, então, que a oportunidade de ter contato com as tecnologias pode ser um indicador de felicidade para as pessoas. Mas vamos fazer um recorte: e se esse contato é feito com o uso de interfaces pouco responsivas, com baixa usabilidade e interatividade, que escondem mais do que viabilizam informações importantes para o exercício da cidadania? Falando de maneira mais simples: sistemas e aplicativos que não trazem soluções reais para a vida das pessoas e não são significativos para o acesso às políticas de saúde?

É nessa preocupação que a felicidade se torna um desafio concreto para o Felicilab. Mesmo que a transformação digital esteja em curso no Sistema Único de Saúde desde a criação e implementação dos primeiros sistemas de registro de pessoas e indicadores epidemiológicos, quando o assunto é o usuário do SUS, as experiências com usos de artefatos tecnológicos deixam muito a desejar. Qualquer pessoa que já foi atendida por uma unidade de saúde, seja ela primária ou secundária, e não pôde agendar um exame ou receber seu resultado, ou não pôde sequer marcar uma nova consulta virtualmente, sabe disso.

 

Time de Design

Time de design: no Felicilab, todo o processo de desenvolvimento começa com o design. Na imagem, da esquerda para a direita: Ranielder Freitas, Jorge Godoy e Paulo Amoreira

A pandemia e o desenvolvimento de tecnologias de impacto social

 

Quando o Felicilab foi criado, ninguém imaginava que em poucos meses estaríamos vivendo uma pandemia, e que a aposta na felicidade precisaria, necessariamente, vir acompanhada de agilidade e de muito tensionamento causado pelo medo e pelas perdas que sofremos todos nós.

“Estávamos planejando melhorias nas experiências tecnológicas que a ESP já entregava, e a idealização para a criação de tantas outras que já sabíamos necessárias, quando veio a pandemia e o problema passou a ser tão concreto quanto complexo: oferecer tecnologias que apoiassem pessoas no enfrentamento da maior crise sanitária vivida nesse século”, relembra Porã.

Muita responsabilidade para quem tinha acabado de nascer, né? E quanto mais aprendíamos sobre métodos ágeis, mas sabíamos que para fazer o melhor possível era possível “quebrar” os desafios gigantes em desafios menores – iniciativas em épicos, épicos em tarefas, tarefas em resultados.

E para cada pequeno problema, uma felicidade possível. Uma barra de alerta para direcionar as pessoas para informações oficiais, um site para integrar o conjunto de informações governamentais num único endereço, um manejo clínico para orientar profissionais de saúde no trato de seus pacientes, um aplicativo para ser um canal de relacionamento na palma da mão dos profissionais… Um capacete de respiração não invasivo para salvar vidas e evitar os inúmeros riscos da intubação. Três milhões de pequenas felicidades em forma de visualização de informação de qualidade e baseada em evidências.

Nos desafios presentes, a ideia de felicidade tem passado também pelo desenvolvimento de soluções que não são digitais, embora apoiadas e incrementadas por ferramentas digitais. No exato momento em que escrevo esse texto, por exemplo, dezenas de colaboradores da ESP estão reunidos na Biblioteca Pública Estadual do Ceará, na 2ª Oficina de Design de Serviços produzida pelo Felicilab, dessa vez com foco na identificação de problemas da própria Escola de Saúde Pública. A metodologia que viemos desenvolvendo nos últimos meses é tão própria e tão profunda que ganhou o nome de Terapia Institucional. É ou não é um projeto concreto de felicidade? A gente acredita que sim.

 

Imagem de alguns participantes da Oficina de Design de Serviços da ESP

Alguns participantes da Oficina de Design de Serviços da ESP

 

No dia 30 de junho, passados dois anos e três meses do início da nossa saga pandêmica, buscamos responder na live produzida pelo Felicilab, a Ih! Nova live, à questão: existe saúde sem felicidade? De uma coisa já podemos ter certeza: a saúde que queremos tem a ver com estar feliz e abrir caminhos para a felicidade de outras pessoas. Nas soluções, nas rotinas e nas questões também, sempre.